Nozes Pires
Processos e conteúdos de manipulação e formatação das mentalidades
Esta exposição é apenas um resumo, mal alinhavado presumo, de alguns, e de somente de alguns, mecanismos e processos de formação de comportamentos padronizados (que compõem de modo universal os comportamentos humanos) e de formatação das mentalidades (utilizando-se para este fim técnicas fundadas em estudos empíricos ou científicos).
Na época que atravessamos – crise do sistema capitalista à escala global- encontra-se por essa razão em crise talvez o mais eficaz modo de formatação das consciências: a relativa abundância de oferta e acesso ao consumo, isto é, a massificação ou, se preferirmos a democratização do consumo. Facilitado em períodos de relativa abundância de oferta, ciclos de prosperidade de determinadas regiões desenvolvidas e difundidas universalmente pelo marketing e pelos media e pelos cartões de crédito, a burguesia submeteu os indivíduos em geral, ultrapassando diferenças sociais, culturais, etárias e étnicas, convertendo-os à utopia de sociedades que produziam e se reproduziam infinitamente. Transformaram-se os “cidadãos” em consumidores. Os indivíduos julgam-se livres pois podem (?) escolher, a mobilidade social parecia real através do consumo, cobiça-se as marcas e inveja-se as elites que efetivamente as podem consumir, produziram-se mudanças consideráveis com a facilidade de aquisição de eletrodomésticos, de tecnologias constantemente melhoradas e de preços variáveis, casas, automóveis, viagens de recreio, etc. A lógica do capitalismo dirigida ao lucro máximo, parecia funcionar como uma máquina eficiente sem avarias graves, permitindo que todo o mundo consumisse, embora com desiguais poderes de compra, correndo todos para o mesmo sonho: consumir. Sobre a satisfação de necessidades objetivas (comer, vestir, habitar) desenvolveram-se antigos hábitos e padrões sociais: os estatutos e as identidades.
O “consumismo” tem sido suficientemente estudado para que necessitemos aqui de esmiuçar. Cabe aqui apenas sublinhar este fenómeno considerando-o a utopia mais poderosa do capitalismo; a transformação do cidadão (essa figura que emergiu da Revolução Francesa) em consumidor; o consumo como combustível da máquina capitalista; a captura de novas e amplas faixas de consumidores: mulheres, jovens, crianças, populações do Terceiro Mundo; expansão ilimitada das relações capitalistas de produção pelo planeta (de que a Coca-Cola e o fastfood norte-americano são bem o símbolo); as deslocações de capital e de empresas; a “cultura industrial”: a cultura como mecânica contemporânea do capitalismo, etc.
O capitalismo assenta na propriedade privada dos meios de produção e na exploração dos que foram expropriados de meios de produção –camponeses, artesãos- forçados a vender a sua força de trabalho a preços (variáveis) que permitem repô-la em uma parte e, em outra, produzir um excedente (mais valia) apropriado pelo capitalista. É nesse preço que o capitalista vai introduzir o desejo de consumo: quanto mais elevado for o rendimento do trabalhador, maior seria o consumo. Os capitalistas ganham duas vezes (isto é, os diversos sectores em que se dividem os capitalistas), na mais valia e na venda aos trabalhadores dos bens que outros trabalhadores produziram. Esta lógica é fundamental. Porém para o capitalista, de modo geral, não é do seu interesse pagar salários elevados, mas o contrário. Contradição do sistema. A prática contradiz a doutrina. Inventaram-se os cartões de crédito. Daí os sindicatos “amarelos” para gerirem com os patrões os limites razoáveis dos salários: é preciso que os assalariados possuam suficiente poder de compra para que os bens se escoem; porém, não é isso que sucede em determinados casos, aprofundando-se a crise do sistema e o descontentamento social. A queda tendencial da taxa de lucro. A especulação bolsista como fonte de rendimento e multiplicação artificial do capital, o crédito mal parado, o endividamento privado. Evidentemente que o consumo, a venda para os mercados, o escoamento dos excedentes e tudo o mais, constituíram desde sempre a lógica do Capital à conquista do mundo. Mas também as suas fragilidades e contradições: a venda, o escoamento dos bens, é travado por excessos de produção e/ou por insuficiência de consumo; os métodos de inovação tecnológica (o racionalismo técnico do capitalismo) ao mesmo tempo que têm demonstrado a capacidade de renovação e adaptação do sistema –o revolucionamento das forças produtivas – colidem com o colete das relações de produção (propriedade, exploração, desregulamentação dos mercados, políticas erradas, legislação laboral, concorrência entre empresas e países, etc.), acentuam o antagonismo entre classes. Contudo, ou por isso mesmo, o chamado “consumismo” propiciado com as políticas de recuperação da crise de 29, com o pós-guerra, o progresso técnico e científico, forneceu um fôlego sem precedentes ( julgaram-se encerrados os ciclos das crises) e permitiu não só que o capitalismo resistisse até agora a todas as crises sociais que percorreram o século passado, como desempenhou um papel crucial na derrota dos regimes socialistas. O “comunismo”, diz a propaganda, demonstrou ser incapaz de concorrer com o capitalismo.
Quero, portanto, enfatizar este aspeto e, ao mesmo tempo sublinhar a importância da atual crise do capitalismo. A diminuição da capacidade de consumo das massas sociais, que se traduz no depauperamento e na acumulação da riqueza num dos polos (vaticínio certeiro de Marx, como se pode constatar em “O Capital”, que demonstra a sua plena atualidade), provoca a contestação social, que vai aumentar com toda a certeza.
A produção e acumulação de excedentes sempre constituíram o móbil de qualquer economia desde as origens da pastorícia e da agricultura. Razão principal da formação de propriedade privada, clãs, cidades, hierarquias sociais, Estados, classes sociais. O modo de produção capitalista trouxe novidades revolucionárias que não cabe aqui lembrar. O que me importa é defender a tese de que o consumo de massa (ou para as massas sociais), sob a fórmula comum de “consumismo”, foi, apesar das contradições profundas, o instrumento fundamental de consentimento, integração e coesão social, de coerção também, de atração e de manipulação, visto que o associamos ao Mercado, à publicidade, ao controlo social, às expectativas e às utopias (no sentido “fraco” do termo) capitalistas. Formar para o consumo, criar hábitos, semear sonhos, inculcar projetos de vida dependentes da vontade e do desejo de consumir (trabalhar para consumir), eis a finalidade de muitas pedagogias, se não da mesma e única, como se constata nas práticas “inofensivas” em jardins-de-infância, nos lares, na persuasão exercida pela publicidade e pelos centros comerciais.
Consumir o quê? Quase tudo, porque tudo é mercantilizável, potencialmente ou em ato. Já que está na moda a expressão “realidade virtual”, apliquemos o velho conceito aristotélico de “potência”. Sempre existiram mercados (Marx fala-nos disso), porém o capitalismo é o Mercado. Nada lhe escapa. O Mercado e o dinheiro – equivalente universal para as trocas- reinam absolutamente. Constituem a matriz do consentimento, do interesse, da submissão, do consenso universal. O Mercado transcende a política e as outras atividades sociais. Domina-as. O triunfo e, ao mesmo tempo, as debilidades do sistema capitalista, encontram-se no Mercado ( compra e exploração da força de trabalho integram-se no Mercado). A doutrina malthusiana (Malthus) do crescimento exponencial da taxa demográfica na razão da escassez, profetizava-lhe um fim; Marx em função de outra lógica, vaticinava-lhe um colapso; Stwart Mill teorizava a utopia de uma estabilidade na qual, por fim, governaria sem sobressaltos a justiça distributiva. Depois de tudo o que já foi e já sabemos, aí está o Mercado, qual deus das profundezas que uns abalos telúricos colocam em dúvida a sua eternidade.
É com o consumo, o poder individual e maciço de consumo, as mercadorias e o Mercado, que se manipula o cidadão, tanto a classe proletária, camponesa, como as classes médias. Se o desemprego e as insolvências já atingem estas ( o que não é nada bom para a estabilidade do sistema), é sobre os assalariados que o desemprego cai como um cutelo e é sobre eles que a burguesia maneja a chantagem, insufla o medo e estimula a divisão. Se o emprego precário reduz o poder de consumo, o desemprego mata-o de vez. É a recessão. Nestas condições objetivas e subjetivas, tanto é possível a submissão voluntária que já se verifica em muitos casos, como a explosão social que também se verifica (sem ser profeta, é muito provável que cresça). Contradições do sistema? Sim, sem dúvida. Dialética da História? Porventura. Mas sem a vontade consciente e organizada das massas sociais (das tais “multidões” de que falavam Maquiavel e Espinosa) não há dialética nenhuma.
Na doutrina liberal e na utopia capitalista das liberdades e do consumo (liberdade de escolha, livre arbítrio das decisões individuais, responsabilidade pessoal pelo sucesso ou insucesso) funcionam estes ingredientes, entre outros:
1. A novidade- No firmamento nascem constantemente novas estrelas, ofertas, apelos, novas mercadorias, novas tecnologias. A necessidade de produzir incessantemente, de escoar necessariamente, de concorrer por um nicho de mercado, competição feroz. Encher a cabeça de desejos, novas coisas. A coisificação absoluta. Desejo insaciável: consome para seres igual aos demais, ou superior, acumula e exibe, guarda inveja, ressentimento, sê “tu”. Individualismo sem pecado. No fundo dos teus olhos o medo, o medo do amanhã. Ansiedade, insegurança. A paranoia.
2. A diversidade- Podemos ser diferentes uns dos outros, diz a utopia. Como? Pela diversidade dos estilos, das marcas, libertamo-nos da uniformidade. Não existe totalitarismo nenhum. Somente as sociedades “fechadas” são coercivas. Embelezam-se as sociedades “abertas”, pinta-se de negro (literalmente) as outras. Na realidade, a diversidade é superficial, um mito e um simulacro. O poder de compra é decisivo. Decisivo é também o poder da coerção publicitária. Aprisiona-se o indivíduo na gaiola dos gostos dominantes e dominadores. As classes sociais permanecem. Multiplicam-se os pobres, os desempregados, os trabalhadores precários, rebaixam-se as classes médias. Como escoar os produtos? Onde anda a livre escolha, o direito à diferença, a diversidade das personalidades, dos gostos, das culturas? Alguns ideólogos esforçam-se por apagar das mentes as teses de Émile Durkheim, o fundador da sociologia (bom leitor de Marx), as teorias “catastrofistas” da Escola de Frankfurt (o controverso mas sábio Adorno), de Marcuse. Os “pós-modernistas” conformistas (nem todos o são) desprezam e silenciam o que o “estruturalismo” tinha de acertado. A liberdade reina enfim, sem os dramas do existencialismo de Sartre.
Excedentes em excesso e escassez
É a escassez que desempenha um papel determinante nas convulsões sociais que percorrem a história universal desde as suas origens: grau de desenvolvimento dos meios de produção, secas e pragas, terras exauridas, maus climas e mudanças climatéricas, etc. Convulsões que podem adquirir formas diferenciadas conforme as crenças dominantes, as estruturas de propriedade e de poder: sacrifícios humanos entre os Aztecas, religiões severas como nos antigos persas e hebreus, migrações de massas, invasões de territórios férteis (é neste contexto que se deve compreender a história de Caim e Abel), luta acesa de classes, guerras, revoluções triunfantes ou inacabadas. Evidentemente que os conflitos são uma constante mesmo em períodos de relativa abundância, contudo estes constituem exceção à regra, porque a escassez é mais real para uns do que para outros, conforme a divisão do trabalho e as classes sociais que, entretanto, se estabeleceram e sedimentaram. Contudo, o que é comum nos períodos de relativa abundância são as revoltas, não as revoluções. O celebrizado “Maio 68” verificou-se num ciclo de prosperidade do capitalismo, foi uma revolta, nunca chegou a ser uma revolução. A prosperidade relativa agilizou a mobilidade social (novas camadas médias, escolaridade de massas, cultura industrial, entrada no mercado de trabalho de mulheres e jovens) que colidiu com o colete das velhas relações de produção, tradições e hierarquias conservadoras. Novas multidões de consumidores exigiam novos estatutos, novos papéis exigiam mudanças de hierarquias e de poderes.
A derrocada (bastante mais lenta do que se supõe) do Império Romano não se fez substituir por um novo de produção, o regime tributário permaneceu, mesmo assim foi a escassez e o “El Dorado” de Roma que era cobiçado pelos povos “bárbaros”. As grandes revoluções modernas - Francesa, Russa, Chinesa – realizaram-se em contextos de escassez, quando os de baixo já não suportavam a sua miséria e a riqueza dos de cima. A classe dominante havia perdido por completo a hegemonia, nem a força bruta a salvou.
Por esta e outras razões (nada é simples) as crises de sobreprodução do capitalismo foram perigosas para o sistema e são-no ainda, apesar de ter aprendido com as experiências do passado e dispor hoje de meios de que não dispunha antes. Controla os grandes fluxos do dinheiro e poderosos instrumentos de formatação das mentalidades. Os Estados utilizam o monopólio da força, repressão aberta ou subliminar, coerção brutal ou manipulação. O recurso à força bruta pode ser-lhes fatal – provocar reações em espiral e politizar as lutas por objetivos económicos- e, por isso, investem tanto quanto podem na propaganda, na arma do desemprego, nos ideólogos de serviço que “interpretam” (como Marx esclareceu) e fazem a opinião, no silenciamento das oposições (partidos, sindicatos, órgãos independentes de comunicação), na manipulação das imagens dos líderes da oposição, das manifestações, das greves. A mentira e a chantagem que compõe o argumento mil vezes repetido de que “somos honrados, pagaremos o dinheiro aos credores, cumpriremos o que acordámos consensualmente”, é o exemplo mais estridente. Quantas vezes não escutamos esse argumento (“O país não tem dinheiro!”) da boca de populares (de todas as classes sociais esmagadas pelas políticas de austeridade, pelo Pacto de Agressão) nas muitas vezes em que os contactamos, nas ruas, nas fábricas, nas escolas…? Como é possível deixarem-se enganar? Como é possível submeterem-se e comportarem-se contra os seus próprios interesses? Esta é questão fundamental de toda a Política como doutrina e como prática.
Então não é a escassez, afinal, que mobiliza as multidões e as classes? É seguramente. Tenha ela a forma e o conteúdo que se entender mais adequado: depauperamento, miséria, desigualdade gritante, desprezo e desproteção pelo Estado. É a escassez que está na base de muitas e graves crises do capitalismo. É quando a escassez se torna insuportável que as ideias se incorporam, adquirem força material. Descapitalização da agricultura, destruição dos modos de produção tradicionais ou familiares, redução dos modos de subsistência dos pescadores, produção nacional estagnada e recurso às importações (o governo atual reduz o poder de compra para reduzir as importações, e gaba-se disso), cortes nos subsídios sociais e diminuição do preço da força de trabalho, desemprego (tudo isto não é por acaso, mas com um propósito). Ao mesmo tempo que o número e o volume das grandes fortunas aumentam. Não assistimos a uma crise clássica de sobreprodução , mas a um depauperamento deliberado para benefício do grande capital financeiro e da concentração e centralização do capital, com o aprofundamento da dependência nacional relativamente às corporações que governam a economia europeia. Não há escassez de produtos no mercado, há escassez de poder de compra, inevitavelmente de consumo. Massas habituadas ao consumo (sempre relativo), desprotegidas socialmente, começam a ver no Estado o seu inimigo e hão de ver no grande capital o inimigo principal.
A escassez tanto permite à classe dominante submeter os dominados, como provocar abalos sociais. Para preveni-los e impor os equilíbrios, a classe dominante recorre a vários artifícios. Vejamos alguns.
A legitimação
Os regimes monárquicos (o Antigo Regime) legitimavam-se através das crenças religiosas (o direito divino) e da tradição. O capitalismo inventou outro processo, por necessidade do combate contra o Antigo Regime: o método eletivo. Os teóricos do liberalismo falam disso, basta lembrar o célebre Montesquieu. Eleições sempre restringidas aos possuidores de propriedade, a minorias, censitárias. O que a burguesia prometeu, não cumpriu. Diminuiu o alcance com que saiu das revoluções a carta dos direitos e liberdades. Não cumpriu, porque temeu. Liquidou em boa parte as conquistas da Revolução (que foram populares, mas também, ou sobretudo, foram-no da Burguesia). Esmagou com Diretórios, revisões das Constituições, guerras, os “excessos” inconvenientes das Revoluções. Mas a legitimação pelas eleições ficou e alargou-se. Sufrágio universal, mais conquistado com sangue e lágrimas do que doado. Mas ficou. Pode-se dizer que a propaganda dos direitos humanos universais não são mais que uma grande treta, mera propaganda, pretexto e justificação para os saques e guerras. Mas as eleições não são mera treta, são factuais, não meramente formais, matriz das democracias burguesas (basta ler o longo repositório dos teóricos social-democratas e liberais). O que importa, então, é reconstituir a prolongada luta pelo sufrágio universal (que não se encontrava nos doutrinadores do liberalismo), a exclusão das mulheres e dos negros, as ditaduras capitalistas que eliminavam pura e simplesmente as eleições, a manipulação dos eleitores através das campanhas eleitorais, das sondagens encomendadas, a utilização dos meios de comunicação, a promiscuidade dos candidatos com o grande capital, a corrupção e os subornos, a falsificação dos resultados, as técnicas de chantagem e do medo, etc.
Legitimados pelos votos os partidos governantes, instituída que foi a “alternância”, cobrem as suas políticas (normalmente o contrário do que prometeram) com o manto diáfano da “representatividade”. Eleitos, quantas vezes, por uma minoria da população que é maioria nos votos escrutinados, fazem-se representantes da totalidade. Não votámos nesses 30%, por exemplo, mas temos de obedecer-lhes, respeitar a sagrada divisão de poderes, manda o credo democrático. Os governantes não são jamais inculpados pelos erros, pelas mentiras, pelas políticas desastrosas ou que beneficiaram somente as elites, os grupos económicos, as minorias de ricos. Sê-lo-ão pelas eleições, diz-se. Deste modo, lavam a mão com a outra. As elites permanecem as mesmas.
Eleições (desvirtuadas, manipuladas), condicionamento das atitudes através de sondagens, representatividade, eis o segredo da durabilidade das democracias burguesas.
Os meios de comunicação de massas
É bem conhecida a influência dos meios de comunicação, os quais permanentemente se revolucionam, se expandem. Também sob este assunto a bibliografia é vasta. As imagens transformaram profundamente a eficácia da imprensa escrita, da rádio e do telefone. As propagandas comercial e política aumentaram desmesuradamente o seu poder, os auditórios, a adesão, a fidelidade, as crenças, a manipulação. A imagem é mensagem (já o era antes, nos tempos da arte figurativa), é fácil, veloz, atua rapidamente sobre determinadas áreas do cérebro, cómoda, substitui o esforço da leitura do texto escrito, dá-nos a ilusão de que somos inteligentes, de que se pode aprender sem trabalho, é “espetacular” e distractiva. É a informação aparentemente neutra, quanto mais credível quanto maior for a crença nas liberdades de informação. Podendo evidentemente formar e emancipar, o que ela faz normalmente é deformar, desfigurar, iludindo e ludibriando. Nas mãos do grande capital (que é onde ela está) ensina a pensar segundo um padrão único, isto é, ensina a não pensar, censura, distorce, mente, omite, descontextualiza, simplifica. A imagem não é uma cópia, mas simulacro, as televisões não copiam a realidade, simulam. É um outro real, artifício, virtual. Com a particularidade de, o mais das vezes, não possuir a virtualidade de vir a ser real, inculca-se a crença de é o real tal e qual em direto, porém é apenas uma faceta da realidade, ou faceta nenhuma, ou seja, no sentido duro, é uma outra realidade. Deste modo se vive em dois mundos, duas dimensões, mas a confusão instala-se, o espetador toma-a como o “real”, como aqueles primitivos espetadores que invetivavam os “vilões” dos filmes mudos. A diferença não é irrelevante, basta observar o comportamento dos jogadores das “play-stations” e outras máquinas da última geração. Infantiliza-se o indivíduo, a idade mental abeira-se dos doze anos, adultos (ou adolescentes prolongados) imbecilizados, sobretudo prisioneiros, condicionados como cobaias nos laboratórios de psicologia experimental.
As estratégias cognitivas
Somos seres sociais, imersos em relações, rodeados pelos outros. Desenvolvemos estratégias comportamentais cognitivas. A cognição social serve-nos (por vias inata e adquirida) para recolher e processar a informação, de modo a percecionar, representar as múltiplas facetas da realidade social. Quando interagimos (desde o berço) formamos impressões sobre o(s) outro(s): organizamos a informação de que dispomos e integramos o outro numa dada categoria, simpatizamos ou antipatizamos. Mesmo quando informações posteriores ou opostas chocam com a impressão construída, o que fazemos é desvalorizá-las (“efeito de ordem”). Se nos inculcaram uma boa imagem do político governante, desvalorizamos o panfleto que nos dão na rua que o ataca. Para não cairmos em tentações, nem sequer o lemos. O senso-comum está repleto de contradições, mas convive razoavelmente com elas. Possuímos um outro efeito: o “efeito de halo”, que nos leva a atribuir características afins (já programadas) ao político simpático: inteligente, honesto, trabalhador, empenhado nos transcendentes interesses nacionais…Se nos “capturou” (na verdade, sem aspas), o resto vem por acréscimo. Está claro que as televisões e as campanhas eleitorais investem ao máximo nestas simpatias –primeiras impressões - capturas em que a publicidade é mestra. Porém, aqui também não há fatalidades: o “efeito de distorção por contraste” é uma outra tendência que atua em sentido corretor: ao detetarmos um traço negativo, sobreavaliamo-lo por contraste ou apenas pela surpresa, pela novidade, pelas provas que nos parecem incontestavelmente fortes; então, reavaliamos o político. No entanto, tal só acontece normalmente tarde demais, já ele fez as tropelias que pôde quando é “julgado” nas eleições seguintes (daí que as durações dos mandatos sejam importantes, ou que o poder de uma outra instituição (o presidente da república, no caso) permita a dissolução).
Entretanto, já elaborámos uma impressão favorável, já o integrámos numa categoria significativa para nós, e já destacámos os traços mais relevantes, dispensando-nos a nós mesmos de saber mais segundo a lei do menor esforço.
O nosso figurante político de que temos vindo a acompanhar neste elencar de tendências, o que é faz então, sabendo, como julgo saber, estas noções básicas ( não é ele que sabe, mas os seus consultores)? Investe na simpatia, nos traços relevantes (um fascinante fato ou gravata italianos, por exemplo) e procura reduzir as consequências do “efeito de distorção”. O nosso atual primeiro- ministro é todo falinhas mansas, idêntica performance é aplicada pelos outros ministros (uma boa enfermeira é melhor que uma antipática e dura enfermeira), num claro contraste com a personalidade do anterior. Fica explicado porque é que aqueles que mais mal diziam da personalidade do anterior, mais depressa votaram neste. Se calhar foi por isso que o grande capital escolheu estes e não outros…e ganharam.
Existe hoje mais informação do que jamais houve na humanidade. Verdade indiscutível. Mais gente com mais possibilidade de acesso a essa informação, sem dúvida. Mas nem tudo são rosas. Por vários motivos subjetivos e objetivos, mas todos eles sociais, tendemos a contentarmo-nos com pouca informação sobre dado assunto ou pessoa, crendo que sabemos o suficiente e o que sabemos nos chegou por via credível. Inclinamo-nos com frequência a julgar que pensamos pela nossa cabeça, porém, comummente, imaginamos uma causa, uma determinada sequência, uma determinada ordem (já o filósofo D. Hume nos alertava para essa causalidade mais imaginada do que objetiva). De facto, julgamos segundo determinados padrões culturais e é assim que interpretamos, que realizamos a “atribuição causal”. Por exemplo: atribuímos causas externas à vontade dos governantes para determinadas políticas. Ora, os governantes investem sobremaneira na manifestação deste comportamento: a toda a hora repetem que o país atravessa uma crise provocada por causas externas, que se limita a ser “um bom aluno” no cumprimento de compromissos. Julgarmo-nos a nós próprios a origem do mal e do bem, ou, pelo contrário, atribuirmos aos outros as causas das dificuldades ou dos sucessos, o que constitui uma conduta usual, pela qual vivemos na ilusão de um controlo das causas, com o intuito inconsciente de diminuirmos a ansiedade. Somos mais ativos, menos passivos, do que parece: procuramos as causas, os motivos porque isto sucedeu assim e não de outro modo e encontramos explicações convincentes. Onde vamos busca-las frequentemente? Às televisões. Ou a crenças enraizadas na nossa mente desde a infância e que nunca nos esforçamos por remover. Os padres foram sempre muito hábeis nessa tarefa “pedagógica”. Atualmente as ciências cognitivas e comportamentais fornecem aos políticos um manancial de técnicas. Porque hoje sabe-se muito mais sobre nós próprios do que alguma vez se soube na história universal.
As expectativas – Enquadrando as pessoas e as situações em categorias, como vimos atrás, interpretando conforme padrões culturais, introvertamos um conhecimento social constituído de noções básicas, ideias gerais, que nos fornecem expectativas e estereótipos. Se representamos o “político” como “mentiroso”, “ladrão”, e outros mimos, que é o que sucede na mente de muitos portugueses, - ou o “Estado” – não esperamos nada de bom de qualquer político, seja ele realmente uma pessoa decente ou não. Esta expectativa se for bem semeada costuma dar um belo fruto: as ditaduras, os messias, os líderes carismáticos (como previa o grande Max Weber). O comportamento expectante explica o chamado “estado de graça” de que tiram todo o benefício próprio os governos de alternância (quando a diferença pode ser igual à do boné preto e do boné branco, como se dizia noutros tempos). Ou seja: a atitude prévia ( na verdade, formatada) determina o tipo e grau de expectativa relativamente a uma pessoa, situação ou instituição. Se temos a impressão de que os negros são violentos, ficamos logo na defensiva quando nos deparamos com um. Sobre este terreno se alojam e crescem dois fenómenos:
1. A” auto-realização das profecias”: tendemos a corresponder às expectativas positivas ou negativas que percebemos dos outros sobre nós, e construímos estereótipos. Na verdade não os construímos sozinhos, mas socialmente. Representações gerais e simplificadas da realidade, pelas quais integramos imediatamente um indivíduo num determinado grupo, portador, portanto, de características negativas ou positivas. São esquemas mentais com que reagimos automaticamente, o que pode ser cómodo e eficaz às vezes. Categorias são “etiquetas psicológicas” agarradas a valores sociais. O racismo, por exemplo, assenta nestas bases. A representação negativa do “comunista” ou do Partido deste, é outro exemplo. Ora, os estereótipos não caem do céu aos trambolhões, nem são inatos, nem criações livres e espontâneas do indivíduo singular. Serão, isso sim, tendências naturais da espécie (se admitirmos quadros inatos da inteligência humana), contudo são comportamentos sociais, com diferentes desenvolvimentos e aplicações conforme a cultura, as circunstâncias e a sociedade em que vivemos. Por isso, o racismo, nestes termos, não é inato, mas aprendido, ensinado, imposto e difundido; valorizado nuns tempos, desvalorizado noutros. Os nobres comportavam-se com os plebeus segundo padrões a que obedeciam e os plebeus muitas vezes acreditavam nessa crença. Generalizamos para um grupo (ou classe social) uma ou duas características, omitindo outras (ou ignorando-as simplesmente). Os estereótipos são crenças generalizadas e expectativas acerca dos grupos sociais e dos seus membros, como se lê em qualquer manual de Psicologia Social. Sendo generalizações, é claro que normalmente se tornam abusivas, tendenciosas, uniformizam, agrupam pessoas que pouco têm de idêntico, guiam interações inadequadas ou evitam-nas erradamente. Os estereótipos são resistentes (veja-se o caso dos racismos, das xenofobias, dos eurocentrismos, etc.), no entanto são permeáveis à mudança. Nada é eterno. O que importa aqui salientar é que os indivíduos são suficientemente moldáveis para se poder injetar neles estereótipos e preconceitos discriminatórios. Neste caso a propaganda pode ser altamente eficaz: lembremos a ascensão do nazismo na Alemanha. Quando a ideologia dominante esteve impregnada desses valores racistas, desde a Europa à Norte-América, não surpreende que o racismo e o nazismo houvesse triunfado na Alemanha durante a crise que a abalava, mas que se tivesse espalhado pelos EU e pela Europa em geral.
Falaríamos também das atitudes, sem a pretensão de nomear todo o acervo de conhecimentos que podemos aprender através dos métodos experimentais das ciências sociais, particularmente da Psicologia Social.
Deste elenco faço por sublinhar a importância das expectativas. É nestas que investe a ideologia e a propaganda. As utopias fracas e os sonhos cor de rosa. O mito da sorte e do azar. A imagem e as promessas dos governantes. Mas também é por causa delas que os governos caem.
Como se formam as representações sociais
Assimilamos as representações sociais construídas através da objetivação e da ancoragem. O primeiro fenómeno social é um processo de apropriação das teorias difundidas que nos permite que as representações complexas e abstratas se tornem mais simples e concretas, através de três fases: seleção (escolhem-se os elementos mais relevantes de uma teoria ou discurso, modo usual do senso-comum assimilar e representar uma teoria complexa; é típico dos credos religiosos e políticos); esquemas figurativos- a informação complexa e simplificada num estereótipo ( o “negro”, por exemplo, o “Eixo do Mal”, “Os países do Sul”); a naturalização – conceitos complexos são substituídos por imagens ou metáforas: é aqui que funcionam em pleno os meios de comunicação social (inclusive as redes sociais da internet) e a oratória persuasiva dos políticos governantes (alguns são, de facto, péssimos oradores).
Conclusões
É claro que determinados figurões políticos de má memória não necessitaram de conhecer todas estas informações (e muitas outras que aqui faltam), não eram sociólogos e psicólogos, para conseguirem intuitivamente seduzir as massas. De resto, foi através do que foram e do que fizeram que nós aprendemos bastante do que hoje sabemos. A teorização vem muitas vezes depois da prática. Marx escreveu profundas e sempre atuais páginas sobre a ideologia observando os ideólogos do seu tempo. Provavelmente o melhor escrito de Marx sobre estas matérias será “O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte”, lamentavelmente menos lido e comentado do que outros textos.
Resta concluir lembrando a profunda influência que as escolas e o ensino público e privado exercem sobre as mentes. É em pequenino que se torce o pepino. Recorde-se que a Educação foi ministério do qual a Direita nunca se alheou desde o 25 de Abril. Ela lá sabia porquê. E nós também. As classes dominantes desde sempre dedicaram à cultura e ao ensino a sua mais atenta preocupação, desde os jesuítas que dominaram as escolas, até à ditadura salazarista. Na oposição, os filósofos iluministas não exemplificam literalmente o propósito de “iluminar” as mentes dos subjugados, libertá-las das “correntes” que aprisionavam estes? Não é esta a expressão com que o grande Rousseau inicia o seu melhor escrito, talvez o mais magnífico discurso político de todos os tempos?
Que correntes são essas? Como se modificaram no decorrer das épocas, sendo, porém, as mesmas? Que meios, que poderes, dispõe a oposição – o lado dos subjugados – para contrariar essas técnicas de formatação das consciências?
Não é apenas libertar o inconsciente, como proclamava a psicanálise mais radical, porque o desejo hoje é, em grande parte, o desejo que a burguesia capturou. Convive perfeitamente com a libido libertada (mais aparentemente que realmente, convenhamos), com o feminismo e outros ismos. O que ela não quer é que o empobrecimento expluda em revolução social. Provoca o depauperamento, convive alegremente com os “dois terços de excluídos”, com um exército de reserva de mão- de -obra, com o “horror económico”. Ela é o terrorismo aberto ou disfarçado, o totalitarismo da razão consensual. E, no entanto, quando as massas se agigantarem (como o fizeram tantas vezes no passado), não há técnicas de manipulação que a salvem.
.............Nozes Pires-----------2015
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